Você quer jogar?

Tabuleiro, cartas, dados, sorte, acaso… Parece um passatempo comum. Mas essa brincadeira, que tem o sugestivo nome de Jogo da Transformação, é dirigida a pessoas que estão em busca de auto-conhecimento e que não têm medo de encarar seus bloqueios.·

Desafiar o oponente, concentrar-se nas estratégias, colocar um plano em acção, contar com uma pitada de sorte e, finalmente, vencer a partida.

As premissas que norteiam todos os bons jogos de tabuleiro para adultos não fazem qualquer sentido no Jogo da Transformação, um passatempo que, mais do que diversão, se propõe a interferir positivamente na vida de cada participante.

Ao final de uma partida, não há vencedores, nem derrotados. Mas, ainda assim, quem o joga garante que a experiência é apaixonante e pode trazer muito mais do que boas horas de entretenimento.

“O jogo explora conceitos de Psicologia e tem como proposta mostrar aos participantes aquilo que os impede de progredir fisica, mental, espiritual e emocionalmente”, explica a tradutora Helena Heloísa Wanderley Ri-beiro, que participou de centenas de rodadas enquanto morou em São Paulo. “A ideia é levar os jogadores à reflexão e ao auto-conhecimento, já que é a ignorância de nossos próprios bloqueios que nos impede de ir adiante em todas as áreas de nossas vidas”.

Objectivos e resultados

Bastante difundido na capital paulista, mas ainda pouco conhecido em Campinas, o Jogo da Transformação propõe que cada participante escolha um objectivo próprio e use o tabuleiro e as cartas como ferramentas para mostrar-lhe como atingi-lo.

Os propósitos escolhidos pelos jogadores podem ser tão variados quanto assumir e expressar talentos, trabalhar conflitos de relacionamento, liberar medos e sentimentos negativos quanto mudar hábitos, transformar padrões de stress, equilibrar trabalho e lazer ou desenvolver a auto-estima.

“Apesar de ter sido criado em Findhorn, uma comunidade holística e ecológica da Escócia, o jogo não propõe experiências místicas ou esotéricas”, explica Helena Heloísa, única facilitadora do Jogo da Transformação em Campinas.

Os facilitadores ou focalizadores são pessoas que recebem formação específica da Innerlinks Associates USA – empresa criada pelas autoras do jogo, Joy Drake e Kathy Tyler – para ajudar os participantes a ir mais fundo em sua busca interior.

Embora seja possível realizar as partidas sem a presença de um facilitador, seguindo apenas as instruções contidas na caixa, a empresa Taygeta, que o produz no Brasil com exclusividade, alerta que os resultados, nesse caso, costumam ser mais superficiais.

Já com os facilitadores, o jogo acaba sendo mais intenso uma vez que essas pessoas dispõem de um material próprio e exclusivo que lhes fornece instrumentos para tornar as rodadas mais dinâmicas.

A comunidade de Findhorn

Traduzido e disponibilizado pela Taygeta no Brasil no início da década de 90, o jogo foi idealizado originalmente por Joy Drake por volta de 1976, quando ela morava na comunidade de Findhorn, situada ao norte da Escócia.

Joy pretendia reproduzir em um tabuleiro as experiências vivenciadas na comunidade a fim de difundir ao mundo as lições aprendidas em Findhorn e os insights ali recebidos sem que houvesse a necessidade de a pessoa viver ali por anos a fio.

A ideia acabou se tornando realidade em 1978, quando uma professora de meditação, Kathy Tyler, refinou o jogo e conseguiu transformá-lo em uma versão comercial. Desde então, vários países o traduziram e passaram a comercializá-lo.

No Brasil, o jogo tornou-se conhecido ao final da década de 80, quando Sarah Marriot, moradora de Findhorn, visitou o Centro de Vivências Nazaré – uma comunidade do interior paulista que tem como proposta colaborar na descoberta de novos modos de expressão do potencial humano.

“Quando Sarah retornou a Findhorn levando consigo o jogo, estávamos tão impressionados com seus resultados que decidimos reproduzi-lo artesanalmente, uma vez que não havia ainda a versão brasileira”, relembra a professora de Inglês, Maria José Gil, uma das primeiras pessoas a ter contato com o Jogo da Transformação no Brasil pelo fato de estar na comunidade de Nazaré quando Sarah esteve por lá.

“Desenhamos e pintamos cartões e fichas e fizemos até a tradução para o Português. O jogo era tão fascinante que, naquela época, chegamos a conduzir mais de 100 grupos, formados por pessoas que chegavam à comunidade para jogá-lo em busca de controle da emoção ou superação da timidez, por exemplo”, diz Maria José. “Quando voltavam às suas rotinas, escreviam-nos para relatar as transformações obtidas em suas vidas a partir do Jogo. Foram experiências bem fortes”.

A tradutora e professora de Inglês, Maria Kenney, que, na mesma época, participou activamente na tradução do jogo para o Português, ainda se lembra das “coincidências” que acompanhavam as partidas. “O Jogo da Transformação pode ser apenas mais um em meio a tantos outros, se for visto apenas como um passatempo”, acredita ela. “Mas se houver um clima de introspecção, o jogo pode trazer resultados surpreendentes”.

A socióloga Roseli Cordeiro, funcionária da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), concorda com Maria. “Independentemente das crenças de cada um, o fato é que o jogo serve como ferramenta para melhorar até o relacionamento entre os profissionais de uma equipe”, ressalta ela que já participou de uma partida com outros colegas de trabalho usando o jogo como ferramenta para um treinamento profissional.

O papel do facilitador

A única pessoa credenciada em Campinas (Brasil) para actuar profissionalmente como facilitadora no Jogo da Transformação, a tradutora Helena Heloísa Wanderley Ribeiro, tem uma história pessoal quase tão curiosa quanto o próprio jogo.

Helena conheceu o Jogo da Transformação dentro de Findhorn, a comunidade que o viu nascer.

Em 1992, uma tragédia abalou a vida da então professora de Inglês. Ela perdeu o filho em um acidente automobilístico e procurava desesperadamente algo que a ajudasse a encarar a dor mais forte e mais profunda que já sentira em toda a vida.

Por meio de pesquisas, descobriu a comunidade escocesa e o Jogo da Transformação e não hesitou em ir para lá.

“As coincidências, então, começaram a acontecer numa sequência impressionante. Parece que tudo contribuía para que eu, de fato, fosse para lá”, lembra ela. “Ao chegar à Escócia, joguei com um grupo de cinco pessoas vindas das mais variadas partes do mundo durante uma semana seguida. Voltei de lá transformada”.

Pouco tempo depois, ela fez o curso para tornar-se uma facilitadora credenciada e conduziu centenas de partidas em São Paulo, cidade que deixou há cinco anos por conta da transferência do marido para Campinas.

Por aqui, ela não faz alarde sobre o Jogo da Transformação, mas está sempre disposta a conduzir uma partida quando alguém a procura.

Outras versões

Uma das peculiaridades do jogo é sua flexibilidade. A Taygeta oferece cinco versões: box, solo, avançada, de grupo ou planetária. Algumas dessas versões permitem reunir até 24 jogadores em uma única partida.

Há, inclusive, uma versão do jogo para ambientes organizacionais, onde surgem pequenas alterações em relação ao jogo original. Os níveis físico, mental, emocional e espiritual, por exemplo, são substituídos pelos níveis individual, time, organizacional e global.

Outra peculiaridade é que os facilitadores credenciados podem exercer essa função profissionalmente e cobrar por isso. Segundo as criadoras do jogo, a necessidade de credenciamento surgiu para evitar que pessoas sem conhecimento passem a actuar como facilitadoras e o jogo seja desvirtuado de seu propósito inicial.

“É claro que qualquer um pode comprar o jogo e usá-lo apenas como material para entretenimento. Mas com um facilitador, a profundidade é outra”, ressalta Helena. “Além disso, recomendamos que seja jogado por adultos, já que é preciso certa maturidade emocional para levar adiante as reflexões propostas durante as partidas”.

Mundo interior

A intenção do Jogo da Transformação é recriar o mundo interior dentro de um tabuleiro. Na versão original e mais tradicional, cada tabuleiro traz quatro caminhos idênticos, que devem ser trilhados por cada um dos jogadores.

Exactamente como num jogo lúdico, a exemplo do Banco Imobiliário ou Detective, o participante rola um dado para se mover e faz suas paradas em diversos tipos de casas que lhe indicam uma ficha a ser retirada.

Há, por exemplo, fichas de consciência, que descrevem qualidades e energias que todo ser humano possui, e cartas de insights, que têm por objectivo expandir a consciência do jogador. É possível também deparar com cartas de bloqueios e fichas de dores, que podem atrasar o progresso do jogador em sua caminhada. Finalmente, há cartas de feedback universal, que são avaliações sobre as consequências das acções escolhidas pelo jogador quando ele lança mão de seu livre arbítrio ou de sua intuição e fichas dos anjos, que trazem ao participante as virtudes de que ele necessita para conseguir cumprir seu trajecto de vida e atingir seu objectivo.

Movendo-se pelo tabuleiro, os jogadores são convidados a tomar consciência da forma como agem nos planos físico, emocional, mental e espiritual. Cada um dos planos é trabalhado separadamente para que as pessoas percebam a qual plano devem dar mais atenção naquele momento.

Quando conduzidas por um facilitador capacitado capaz de criar um clima introspectivo, as jogadas propiciariam aquilo que a idealizadora Joy Drake chamou de “sincronicidade” entre os jogadores e as cartas. Ou seja, as cartas trariam para cada jogador justamente a mensagem de que ele necessita naquele determinado momento.

“Talvez isso aconteça porque todos nós passamos pelas dificuldades, enfrentamos os bloqueios e apresentamos todas as qualidades que surgem nas cartas durante o jogo”, acredita o administrador de empresas, Dimas David Silva, que já participou dezenas de vezes tanto de jogos individuais quanto de jogos colectivos, inclusive em grupos de mais de 20 pessoas. “Assim, quando tiramos uma carta e somos convidados a reflectir sobre aquilo que ela nos traz como mensagem, sempre conseguimos aproximá-la de nossa realidade, com a vantagem de poder reformular aqueles acontecimentos dentro do tempo e do espaço em que o jogo acontece”.

Artigo publicado na Revista Metrópole, Brasil (15/01/2006)